De pantufas, na rua Basílio Teles

Várias vezes nos desencontrámos nesta rua, nas imediações onde ambos trabalhávamos. Hoje a Isabel enviou-me este texto que escreveu sobre Cesariny. Obrigado Issabelinha.

De pantufas, na rua Basílio Teles

Isabel Lucas

Vinha de casaco de tricô bege. Um casaco sem tempo, de lã grossa com borbotos. Não lhe chegava aos joelhos. Abotoava à frente, com botões de madeira, e tinha dois bolsos, um de cada lado, naquela malha que imita ondas como as do mar que gostava que o levassem a ver. Era nesses bolsos que às vezes punha as mãos enquanto andava com passos miúdos. Sem pressa e silencioso. “Tenho um pé que já deu a volta ao mundo”, escreveu ele em Autografia, poema que haveria de ser nome de filme biográfico. E deu a volta ao mundo porque o mundo era ele, diria também. E ninguém diria ao vê-lo assim, num tempo em que já não escrevia, com as pantufas que não chegava a descalçar para ir almoçar ali, naquele restaurante onde agora entrava, como entrou em tantos outros dias antes. Gestos repetidos de um quotidiano em que sair de casa de roupão era o pouco que lhe restava para provocar, ele, a quem Luís Pacheco – outro surrealista — chamou um dos “surreal lisboeto”, “malta de cafés e outros estabelecimentos, com vidas mais ou menos precárias, histórias psiquiátricas e uma predilecção por álcoois”, como recordava Pedro Mexia, num suplemento DNA de Abril de 2004.Para ele, agora, era só descer as escadas, virar à esquerda no passeio estreito de uma rua sem história de Lisboa e entrar na porta ao lado. Já não escrevia versos em 2002, mas pintava e “a pintura foi outra maneira de andar”, disse ele um dia, nesse mesmo ano, quando lhe atribuíram o Grande Prémio EDP, distinção para a sua obra plástica.
Andava e às vezes não ia com o casaco bege. Levava antes um roupão cinzento, de quadrados. Era quando estava mais frio. Mas mantinha as mãos nos bolsos que só tirava para ajeitar a boquilha onde o cigarro queimava. Entrava e havia cabeças que se viravam para o ver entrar, sem a companhia “de gente altamente suspeita”, como acontecia quando o viam na noite, quando frequentava a noite. Isso anotou ele noutro poema. Agora entrava, esperava que lhe indicassem uma mesa e sentava-se. Levava a irmã, Henriette, com quem vivia, a mesma que em Autografia — o documentário de Miguel Gonçalves Mendes estreado em 2004 — se definiu como uma “antiartista” e irmã “de um santo irmão”.
Era Henriette, a mais velha das três irmãs, ou então um amigo, quase sempre o mesmo, alguém com um rosto em que ninguém se fixava porque os olhares só perseguiam aquela cabeça branca com queixo adunco, riso escarninho desenhado na boca e contagiando os olhos; riso sarcástico de um sarcasmo que se recusava a envelhecer, apesar do corpo cada vez mais curvado, frágil. A maior parte das vezes calado outras soltando um cumprimento efusivo, dizendo palavras que sublinhava com gestos exagerados. Cesariny no seu teatro, “performer nato” segundo quem o conheceu de perto a dizer palavras. “Palavras que nos sobem ilegíveis à boca / palavras diamantes palavras nunca escritas / palavras impossíveis de escrever / por não termos connosco cordas de violinos / nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar…” (in You are Welcome to Elsinore).
E as palavras, o “dever de falar”, dependiam da assistência. Porque vê-lo entrar era uma espécie de happening, um acontecimento, uma liturgia. Mário Cesariny de Vasconcelos, o poeta, o pintor, numa rua sem história, num restaurante fora de roteiros, a comer, de pantufas e roupão, mesmo por baixo da casa que lhe deram para viver, em Lisboa, mas longe da Lisboa que sempre transportou para a sua poesia. A dos bares do Cais do Sodré, das tertúlias, dos cafés Gelo e do Royal num tempo salazarista que o perseguiu pela sua homossexualidade. Ele estava ali, na Rua Basílio Teles, rua sem história, mas onde ele encontrou estórias para um poema. A rua da casa, a rua do restaurante para onde ia de pantufas e roupão. E para que menu? A ver pelo cardápio, dos que se guardam em vidro com fechadura, do lado de fora da porta, decerto diferente daquele que Cesariny descreveu em Homenagem a Cesário Verde e publicou no livro Pena Capital (Assírio & Alvim): “Depois do bolo-rei comeram-se sardinhas / com as sardinhas um pouco de goiabada / e depois do pudim, para um último cigarro / um feijão branco em sangue e rolas cozidas.” Ali, nada disso. No máximo uma lampreia vinda do rio Minho e feita por encomenda, uns joaquinzinhos com arroz de tomate e sardinhas, mas sem goiabada…

 

Tocando para a Rua Basílio Teles

As linhas os carros
aerodinâmicos
a nuvem cinzenta
por cima de mim
a sapateirinha
noiva de três
o jovem operário
presa de mil
o salto que dei
galgando o passeio
o lápis miúdo
no bolso de trás
os versos que faço
sem grande alegria
a voz dos amigos
amigos amigos
negócios à parte
sempre (qualquer dia)
me darão alento

Bem vêem pensei
que a coisa era outra
desculpa estou velho
tenho inconsequências
Pensei… bem, pensei
em vida que o fosse
não deu resultado
não dá resultado

Amigos, dizei
deu-vos resultado?

Resultado o quê?

Abrir a barragem
vazar a dispensa
brincar ao herói
–ou ser herói mesmo

Herói? Herói? como?

Pois é. Sou escritor
não tenho experiência
já disse: pensei
que fosse possível
mas pronto. Acabou.
Juro envelhecer.

–Ó enforcados
o tempo passa
o tempo passa
que desgraça!

Passa nada, amigos!
A única coisa que passa
é o publicista Azeredo
que é chauffeur de praça

Paragem. Apêrto

Vai isso? Vai isso?
Vai mal, obrigado.

Dinheiros? Pois sim
recebe depois.
E o que é que é?
Ah isso veremos.
Cinema. Teatro.
Poesia, talvez.
Bem, bem.
Bom, bom.
Saúde.
Adeus.

Apêrto. Partida.
Fico no meu sítio.
Lá vem o eléctrico
amarelíssimo.

As ruas as casas
de zincogravura
os barcos que saem
a barra que eu vejo
o freio nos dentes
do burro inocente
o forte em Monsanto
o santo em Monforte
o homem que é fraco
o homem que é forte
sempre (qualquer dia)
me darão alento

Mário Cesariny
Nobilíssima Visão
Assírio & Alvim, 1991

 
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