Ontem resolvi ir ao Museu do Oriente, que abriu este fim-de-semana em Alcântara. Não fui atraído pela entrada à borla que vigorava nestes dias, nem para me inscrever num workshop de origami. A ideia foi a de tentar juntar o útil ao agradável: é hora de almoço, embora lá procurar uma comida oriental. Talvez até tenham umas coisas de países menos óbvios, pensei eu. E já agora dá-se uma espreitadela ao museu, para depois voltar com mais calma
Pesadelo – tomo 1
Na verdade não fui só eu que tive a ideia de escolher o dia de ontem para visitar o Museu do Oriente: uns milhares de pessoas lembraram-se do mesmo, sendo que a fila dava a volta a ¾ do edifício). Como tinha literatura e estava mesmo com vontade de uma comidinha, sei lá, Vietnamita, por exemplo, achei que merecia a espera. 40 minutos depois (dos quais 10 à chuva) lá consegui entrar. Dirgi-me à cafetaria, na sub cave, e entrei em estado de choque perante o que vi (desculpem o histerismo mas já eram 15.15h e fome apertava) Comida Vietnamita? Coreana? Japonesa? Tailandesa? Indiana? Chinesa? Não, apenas um self service do mais paupérrimo que há, oior que cantina de liceu. Evitando pedir o livro de reclamações (para uma queixa condigna, seriam precisos uns 15 volumes), dirigi-me ao restaurante cujo a sinalética indicava ser para cima. Seria no andar de cima? Não, que isso é muito perto da sub-cave. Seria no 2º andar? Não… fui seguindo a sinalética até ao 5º andar. Ainda a arfar entrei pela porta do restaurante. “Só servimos buffet, de cozinha internacional, mas fechámos às 15” disse-me um responsável. Ainda mostrei a minha indignação, mas o sr, todos cheio de si, limitou-se a um “lamentamos” (como quem diz, “estou-me a borrifar para o que está praí a dizer, se quiser comida oriental vá ali ao chinês de Santos”).
Irritado, mas resignado, apanhei o elevador e voltei à cantina. Fila, novamente fila. Quase a chegar à minha vez resisti à triste visão de umas sandes de queijo e de fiambre, pastéis de arroz e resquícios de esparguete com qualquer coisa. Recusei-me, saí, peguei no carro e saí em direcção ao Casanova, em Santa Apolónia.
Pesadelo – tomo 2
A fila para o Continente (perdão, para o Museu do Oriente) continuava, agora agravada com um trânsito caótico nas imediações. Lá consegui contornar o problema e segui para o destino. Quando já estava quase no Cais do Sodré, lembrei-me que aquela via junto ao rio não tinha saída. Calma Miguel, tudo se resolve. Voltei para trás até Alcântara, passei o viaduto e percorri toda a 24 de Julho aos soluços, já que os semáforos daquela via tinham resolvido homenagear o Rui Costa, neste dia em que pendurava as botas. Passei o Cais do Sodré e dois polícias de bigodaça farta e barriga proeminente barricavam a rua. Merda, os famosos Domingos de transito cortado no Terreiro do Paço do António Costa. Fiz Inversão de marcha, atravessando o traço contínuo, mesmo nas barbas, perdão, nos bigodes da polícia, e subi a Rua do Alecrim. Entretanto mudara de estratégia e o meu objectivo já só consistia em trincar um prego no Ramiro da Almirante de Reis (o melhor de Lisboa). Ao descer o Campo Santana, em direcção ao Intendente, novamente outra barricada da Polícia (“Psst, ó Amigo, faça o favor de seguir por onde lhe digo”). Filho da p… vociferei baixinho. Novamente inversão de marcha, desta vez até ao Campo Mártires da Pátria para depois virar à esquerda, certo? Claro que não. Mais um polícia a (des)organizar o trânsito. Ainda perguntei se haveria mesmo alguma hipótese de, naquele dia, chegar à Almirante Reis. “Faça o favor de ir até à Estefânia”. Obrigado seu empata fod… encon… do cara… (isto não fui eu, foi o carro do lado).
Pesadelo – tomo 3
Colérico, com uma ligeira espuma verde ao canto dos lábios, uma mão ameaçadora de fora e outra na buzina não tive outro remédio se não ir até à Estefânia, para depois voltar tudo para baixo novamente mas pelo menos, já na Almirante Reis. Tudo? Nãooooooo. Ora pois havia mais um carro de policia a impedir a marcha, sendo que ao longe vislumbrava-se uma multidão. Virei para onde pude e estacionei como foi possível. E se o Ramiro estivesse fechado? Passei a multidão que se tinha posicionado para ver a procissão do S.Jorge (o real motivo dos vários cortes de trânsito nas imediações) e, aliviado, vejo a porta do Ramiro aberta e com mesas livres. Consegui!!! Eram 16.40h e nunca um pregão me soou tão bem: “saia uns camarões de Espinho, umas ostras, um prego e uma imperial, aqui para a mesa 10” !
(foto da procissão a através da montra da Cervejaria Ramiro)
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