Foi um Gilberto Gil rouco que entrou em palco ontem à noite no Coliseu dos Recreios. Mesmo com a voz em condições longe do ideal e com falhas sempre que tentava subir o tom, Gil falou, cantou e encantou uma sala que encheu (mas não esgotou) para o ouvir.
A solo, apenas com o seu violão, ou na companhia do filho, também no mesmo instrumento, Gil trouxe-nos o espectáculo que nos últimos tempos tem vindo a apresentar na Europa. Talvez devido a esse facto, o reportório incluiu várias canções em inglês ou bilingues, como a versão do seu “rouxinol/nightingale e visitas aos seus amigos McCartney (“when i’m 64”, apresentado pela primeira vez, em Londres, há dois anos atrás, no dia em que fazia 64 anos) e Bob Marley (‘Three Little Birds’, e Woman no cry, aqui também recorrendo à sua versão “Não chores mais”).
Verdadeiramente encantado por poder estar perante uma plateia que entende a sua língua, explorou alguns temas onde a sua subtileza e criatividade no jogo de palavras é bem visível. Pelo meio, ainda houve tempo para fazer de ministro da cultura, apresentando exemplos de sambas de várias proveniências (com destaque para “Aquele Abraço”).
A mim, não foi preciso muito, conquistou-me logo com a segunda canção, “esotérico”, uma das minhas favoritas:
“Não adianta nem me abandonar
Porque mistério sempre há de pintar por aí
Pessoas até muito mais vão lhe amar
Até muito mais difíceis que eu prá você
Que eu, que dois, que dez, que dez milhões, todos iguais
Até que nem tanto esotérico assim
Se eu sou algo incompreensível, meu Deus é mais
Mistério sempre há de pintar por aí
Não adianta nem me abandonar (não adianta não)
Nem ficar tão apaixonada, que nada
Que não sabe nadar
Que morre afogada por mim”
“Aquele abraço” também para si, Sr. ministro
